segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Gracias a Quintana


"Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa".

Mário Quintana, gracias.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Dama do Cassino

Eu prometi e cumpri mil carinhos
E muito respeito
Amor perfeito nos momentos bons
E nos momentos maus
Mas essa dama danada nunca encontra
Nada a seu jeito
Ela só busca as espadas, os ouros
As copas e os paus

Eu planejei sete luas de mel
Caravanas e tropas
Museus, paisagens, perfumes, vestidos
Receitas e roupas
Mas essa dona maldita sequer
Acredita em Europas
Ela só sonha com ouros, com paus
Com Espadas, com copas

Diz-se que quem é feliz no amor
No jogo é infeliz
Mas de quem faz do amor
Um jogo o que é que se diz
Eu não sei jogar e ela é a rainha
Como poderei pensar que ela é minha?

Eu escrevi canções pra caminhões
De guitarras e couros
Que se tornaram estouros em mais
De muitos carnavais
Mas pra essa Diva jamais
O sambódromo, o autódromo, os touros
Ela só fica pensando em paus
Copas, espadas e ouros

Eu já fiquei como Erasmo
Sentado à margem das estradas
À espera de uma palavra da boca
Um gesto das mãos
Mas essa deusa só diz nãos e
Nuncas e necas e nadas
Ela só sabe de paus e de ouros
De copas e espadas

"Ney, você é show, sua voz é linda! "

Desbocando no blog da Renatóviski

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

"Será que ela existe mesmo ou só anda perdida por aí?!
Paz?

Fatos e fotos
Retratam a vida
Pintada em vermelho
Pelo sangue derramado
De inocentes sem vidaEm seus leitos de paz
Paz?
Palavra vencida
Passada da validade
Sem a menor vaidade
Perdeu o status
Em tempos de dores
E lágrimas insones
Onde nada somos
Ou nem sequer podemos sonhar...
Diante de tantos ataques
Fogo cruzado entre povos
Assistimos como expectadores
Aterrorizados pela fumaça
Que densa se faz e desfaz
Triste cidades em pedaços
Onde vidas vão sendo roubadas
Por covardes ladrões de almas
Ouvimos gritos soltos
Altos, perdidos no espaço
Desesperados pedindo socoro
Em busca de um fio de esperança,
ESPERANÇA?!!!
Mas essa de tão velha
Já nem ouve mais...."

posted by Lua at 7:06 AM

JuHits disse:
É um vexame internacional ver a ignorância do Bush ceder às táticas dos fundamentalistas. Eu até respeito a luta religiosa pela terra que o Deus de cada um prometeu. A morte digna de um corpo que se mata pelo maior inalcançável no mundo palpável. Agora, assistir em casa o tom falho de "ordem inteligente" daquele jeguezinho me dá nojo. O sangue do seu texto está muito mais vermelho por causa dele, que é a favor até da matança americana. Nenhum país produz tanto filme de autodestruição como o dele. Dá um nó na minha garganta acompanhar isso em pleno século XXI. O Bush foi uma das piores catástrofes mundiais.
28 Agosto, 2006 13:23

domingo, 17 de setembro de 2006

Civitate de Amore


Sou leve, me sinto samba, sono, luz. É você, meu bem, grande motivo da minha calma, justificativa ideal pro meu levar à toa. Já me sinto a sua benvinda companheira de que Chico fala. E quero sê-la no ideal. O som do dia acordado irá nos apressar e vamos questionar como é difícil amanhecer. A cidade dos indivíduos precisa amar. Será que conseguimos?

Os afazeres vêm nos pertubar e eu te chamo pra fazer samba comigo até mais tarde. Vou tornar mais longo o bom do seu dia e mais radiantes as cores ao seu redor. Vou gritar dentro de você e deixar o som ecuar por quantas vezes quiser ouvi-lo. Vou te girar e me girar em você. Vamos ficar tontos, mais tontos. Intento te surpreender. Apesar do sempre, vou buscar ser novidade e insistir no belo.

Vou te provocar a leveza, o samba, o sono e a luz que sou hoje. A pressa urbana não será abalo, meu colo vai te acalmar de todas buzinas, de todos os sermões desnecessários. Eu me camuflo no meu cheiro onde quer que você esteja. Te provo a segurança a que o nosso sentimento nos induz. Nada de correria. Vamos fazer samba e muito amor na calmaria do nosso lar. Espetacularmente nosso.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Poliamor


Em poucas de minhas inserções discursivas no orkut, entro numa comunidade de discussão de relacionamentos baseada na idéia de que o diálogo é A solução. Indicada por uma amiga com quem realmente exercito a tal prática salvadora, achei interessante e penso que pode ser super produtiva essa nova comu. Lá vai a Juliana em sua primeira aparição, o tópico é o mesmo que intitula este post:

"Poliamor é possível, sim.
É possível alguém amar mais de um alguém, da mesma forma até. Difícil talvez seja acreditar nesta possibilidade e encará-la como fato. O amor romântico nos ensinado e idealizado sempre não nos permite aceitar racionalmente a idéia de gostarmos com a mesma intensidade de mais de uma pessoa. Mesmo sendo este amor o de homem-mulher. A monogamia ocidental, aliada à Igreja, taxa de feio a mulher que sente atração por outro - e o pior, por outra! - que não seja o seu marido, o cara de sua vida com quem casou e é pai de seus filhos e ai dela (da mente dela em relação a tudo) se um dia olhá-lo e não ver mais tanta graça assim.

A grande chance de estarmos discutindo isso é a alteração de valores que vem, em alguns momentos, a nosso favor. Nós, mulheres, hoje, já não somos criadas para depender de homens, o que desencadeia em um monte de outras desobrigações. Homens podem ser um ótimo começo e meio no percurso da egoísta vida atual, mas não são mais um fim. Não nos propomos apenas a um casamento e maternidade como acontecimentos que nos completariam como mulheres.

Confesso, também, a tristeza, por um lado, de observar meninas-homens em todas as suas esferas. As jogadoras de futebol retratam bem o exagero de algumas de nós nessa ânsia de ocupação do que antes era só deles. Competição é o termo que guia a estratégia de muitas mulheres na busca pelo seu espaço. Não gosto muito, não acho bonito. Nós menstruamos, geramos bebês e os parimos, temos de ter consciência do delicado quase sagrado intríseco a nós. Chegamos perto do amor maior.

Viver em harmonia com os homens e as outras coisas do mundo, sem preconceitos de que o desejo por outro vire pecado pode ser o grande lance da convivência humana. Os bruxos e os cientistas já foram queimados, hoje a matança é a mental. A culpa de que Nietzsche tanto fala nos consome diariamente. Mais de 2000 anos após a história do "Salvador", nos vemos presos a nos punir pelo amor a mais de um. Irônico, não é? Eu defendo o poliamor, em todas as suas formas e em todos os seus tempos".

Vamos ver no que vai dar....

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Ratio essendi


Quando a sensação do gostar invade é a injeção de vida que chega novamente. Brilhante ser humano divino este que por aqui vive. A sensação é a dos dias, das manhãs claras de vento frio na Fortaleza de 27º C, no dia 11 de setembro de 2006. O cheiro bom de gente circulando, o sono que se esvai naturalmente. O gostar te proporciona a percepção de tudo isso.

Maravilhada, só consigo ser grata pela vida. Pela mãe que me dá o maior amor do mundo, os amigos que me mostram a alegria fácil, o parceiro ideal que se empenha por um projeto nosso. Hoje eu senti o viver como há tempos não o fazia. Por isso o texto subjetivamente alimentado. O motivo? Uma demonstração de querer enorme, uma dedicação gratuita por um ideal de amar tranquilamente. Produzir e reproduzir no ciclo.

A rotina quase faz sentido nessa hora. Os relógios quase se justificam não deixando dúvidas para as rugas. O mundo quase me diz: "Eu sou assim, Juliana. Não tem jeito". E eu acato com um sorriso tímido de quem subentende o não dito em todos os ditos, a intenção das flores e o porquê da chuva. Mas eu sou como todos os outros, divinamente igual. Sou perecível aos rumos incertos e às investidas econômicas como se isso fosse planejar a vida. Que bobagem. Ter outro alguém divino se permitindo a você vale mais do que tudo.

Ratio essendi.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Jornalistas assessores sociais


Conflito. Esta é uma marca presente nas inúmeras discussões pretendidas sobre a polivalência do profissional jornalista tendo em vista a nova demanda de serviços de comunicação das comunidades sociais globalizadas. Entendido primeiramente como aquele que trabalha a serviço da sociedade, tomada aí em sua forma mais ampla e abrangente possível, o jornalista brasileiro se vê atualmente sobre um muro de indecisões.

Por um lado, foi, ao longo dos anos, academicamente orientado como aquele agente social capaz de interagir através da construção da informação como um bem público. Valores idealistas de imparcialidade e neutralidade compõem a essência do jornalismo como profissão. Por outro, observa hoje a crescente onda de oportunidades comunicacionais que exigem um trabalho informativo, a priori, unilateralizado: as assessorias de comunicação. O muro descreve, assim, a incompatibidade ética do exercício simultâneo de ambas as profissões.

É a partir destas explanações que verificamos a clara dualidade encarada por quem trabalha com comunicação informativa no Brasil, país onde a legislação competente é repleta de brechas que não delimitam satisfatoriamente a linha tênue definidora de ambas as catergorias profissionais. O jornalista brasileiro sofre conflitos subjetivos quanto à amplitude de sua esfera de atuação como profissional arraigado a compromissos sociais, universo caracterizador pleno de sua função laboral.

No Brasil, o Código de Ética do Jornalista, em seu Artigo 13º, afirma que “O jornalista deve evitar a divulgação dos fatos: a) Com interesse de favorecimento pessoal ou vantagens econômicas; b) De caráter mórbido e contrários ao seus valores humanos”. O mesmo instrumento de apoio profissional diz, em seu Artigo 10º, que o jornalista não pode: “ e) Exercer cobertura jornalística pelo órgão em que trabalha, em instituições públicas ou privadas, onde seja funcionário, assessor ou empregado”. Pode-se verificar nos trechos a primazia por uma responsabilidade de caráter ético, justificada pela incompatibildade declarada do exercício mútuo das duas profissões aqui discutidas. A essência jornalística não é perdida, mereceu certo cuidado no Código citado, o qual, ainda que de forma tímida, atribuiu ao jornalista profissional o desempenho de assessorar uma instituição.

O jornalista de redação, aquele que investiga a sociedade, trabalha sempre na perpectiva da busca pela neutralidade em tudo o que noticia. Os fatos são relatados de maneira através da qual suas percepções subjetivas sejam amenizadas da melhor forma possível. Sabe-se, também, que a capacidade de ser imparcial é impossível, pois o jornalista é um cidadão e obedece a determinadas visões de mundo de acordo com seu universo particular. De modo semelhante, não esqueçamos a característica econômica do meio em que atua. São empresas jornalísticas, visam ao lucro assim como órgãos da esfera privada que empregam milhares de assessores de comunicação.

Um importante fator a ser mencionado neste momento é a capacidade funcional e social dos serviços elaborados estrategicamente pelos gestores da comunicação em órgãos empresarias, de estrutura explicitamente parcial. Os que atuam neste campo não deixam de ser profundos analistas do meio que os cerca, além de peças-chave na definição e construção da imagém pública da instituição que os abriga. Trouxeram contribuição. O aprofundamento do tema com o qual trabalham, a relevância social do setor em que atuam e a inserção de idéias extensivas para os jornalistas de redação são exemplos do quanto este ramo atua na imprensa diária.

Ainda que imparcialmente, a comunicação não deixa de ser realizada com qualidade e amplitude que abrangem e enriquecem os espaços dedicados à publicação de informações. Toca-se na essência da neutralidade jornalística, mas pensa-se numa qualidade produtiva que resulta em um ganho social. O muro de indecisões pode encontrar aí uma saída viável para os conflitos subjetivos incessantes. Como citado no Código de Ética, não é preciso abandonar a profissão de jornalista profissional para exercer a função de assessor. O que não se deve fazer é responder simultaneamente pelos dois cargos conflitantes.

De acordo com Chaparro, a notícia é hoje um dos bens mais valiosos do mercado mundial. O autor afirma que cerca de 95% do que a imprensa noticia todos os dias são conteúdos previamente programados por instituições interessadas ou revelações e discursos trabalhados por fontes organizadas. Daí a crescente relevância do papel difusor de quem lida com a comunicação, seja corporativa ou não. Jorge Duarte (2003) acredita que “submetido a exigências conflitantes, o jornalista assessor de imprensa foi capaz, no Brasil, de criar padrões de comportamento aceitáveis para um lado e para outro. A busca por credibilidade profissional e consciência tranqüila parece ter falado mais alto”.

Neste contexto moderno, o relevante é perceber o jornalismo como campo de atuação profissional onde todos os que o compõem podem ser constantemente beneficiados. O material que chega às redações pode oferecer mais subsídios aos repórteres e editores, as empresas assessoradas alcançam espaços na agenda pública após processo estrategicamente trabalhado, as pessoas usufruem de conteúdo consistente, interagem e assimilam informações fornecidas pelas diferentes partes deste conjunto de peças integrantes do processo de informação pública.

Desta forma, a sociedade passa a ser assessorada pelos profissionais da mídia. Direta ou indiretamente, os comunicadores prestam serviço a um público de escala mundial que diariamente demanda consumo informativo. Em assessorias ou nas redações, os jornalistas são os responsáveis pela circulação de dados e fatos, agendando, pautando e orientando cidadãos, famílias, empresários, estudantes, teóricos, gestores do Terceiro Setor, políticos, desempregados etc.

Se a comunicação for observada por esta perspectiva, o desconforto íntimo ocasionado pelo conflito ético poderia, assim, ser amenizado. O jornalista admitindo-se agente efetivamente social independente de onde atue seria já um bom caminho para o progresso legal dessas questões. A realiadade de uma definição exata para ambos os campos de atuação poderia fazer desse muro, quem sabe, coisa do passado.

Referências bibliográficas

CHAPARRO, Manuel Carlos. Bristol-Myers Squibb Brasil S.A. Fontes abertas: indicadores Bristol-Myers Squibb de relacionamento com a imprensa. São Paulo, s.d.

DUARTE, Jorge. Assessoria de Imprensa no Brasil. In: Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia: teoria e técnica. Jorge Duarte (Org.). 2ª ed. São Paulo: Atlas, 2003.

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS. Código de Ética do Jornalista. Disponível em: http://www.fenaj.org.br/Leis/Codigo_de_Etica.htm

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo. A tribo jornalística: uma comunidade interpretativa transnacional.Florianópolis: Insular, 2005.

domingo, 27 de agosto de 2006

Acho que a Zuzu foi mais do que aquilo

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Ele já não pode mais cantar


Angélica de Chico Buarque foi mais capaz de gritar ao mundo a dor da mãe em desespero do que as imagens em movimento e os sons dirigidos por Sérgio Rezende. O filme "Zuzu Angel", lançado neste mês no circuito nacional, deixa a desejar para quem aguarda sentir o aperto no coração de uma mulher que perde um filho. E mais, o perde em situações de extrema gravidade. Stuart Angel Jones, até onde se sabe historicamente - e como a trama contou - foi torturado até a morte. Por causa daquela mesma coragem que sua mãe lhe atrelou durante conversa com membro da Anistia Internacional, a de dar a vida pela liberdade. A ela, atribuia-se a legitimidade. Afinal, era por que lhe restava lutar.

Ainda que se fale da bravura de uma brasileira, da injustiça militar, da luta jovem pela garantia do maior bem humano, o filme deixa longe o caráter emotivo. O trabalho de se relatar a história é de merecido reconhecimento, mas o teor afetivo termina em segundo plano. A obra é relevante documento histórico, até pedagógico, só falha na apreensão do sentimento do espectador. Figura número um quando se fala de cinema. Ele não foi privilegiado mesmo. O trailer é de poder impactante bem maior.

A fotografia não deixa de ser rica, os personagens estão bem retratados e as cenas de tortura chegam a chocar. Não é uma programação que se exclua da agenda, mas que apenas se prende com mais força aos detalhes técnicos. O roteiro é razoável, mas a fórmula escaldada de começar pelo fim também colabora no empobrecimento da história. Patrícia Pilar está linda, foi de acordo ao que tinha em mãos para executar. Daniel de Oliveira faz o militante enérgico. Leandra Leal o acompanha nessa linha. Não há como não remetê-los a "Cazuza".

"Zuzu Angel" é filme com caráter de relato. A história é narrada de acordo com a gravação que a estilista famosa fez questão de registrar para a posteridade. Válido para quem, de repente, está curioso para conhecer esse fato histórico brasileiro de uma mãe que ganhou uma canção de Chico Buarque. Dois bons atrativos para se querer saber quem é essa mulher.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Polética

Muniz Sodré, em debate sobre a possível elaboração de um único sindicato que abrangesse jornalistas e assessores de imprensa, se posiciona, antes de mais nada, a favor da ética. Concordei com tudinho que saiu da boca dele. Ninguém sabe se definir nesse bolo e as cabeças arcaicas que não querem compreender a comunicação corporativa dificultam ainda mais a divisão das fatias. Natureza política. A visão romântica do "jornalista de jornal" não acompanha mais o ritmo urbano. Que decepção eles não assumirem a realidade! Parece que ela só vem quando não existe outro rumo e é a única alternativa contra o desemprego.

Por que não aceitar a comunicação como um ótimo serviço (rico, estratégico, ideológico) que pode ser oferecido às empresas? Por que não tratá-la de forma tão digna quanto a do repórter ou do editor? A essência da neutralidade do jornalismo de redação, eminentemente social, pode até ser afetada nessa hora, o que não quer dizer que o assessor não detenha certos princípios em relação ao trabalho desenvolvido no âmbito particular, seja na esfera privada, pública ou no Terceiro Setor. Ele também segue uma conduta tanto quanto o contabilista ou o advgado.

Não esqueçamos ainda a utópica crença de que cobertura de jornal é prova da realidade. O fato está muito longe de ter sido o que você leu no jornal ou viu na TV. Os comunicadores não se atinam para sua percepção em cada termo escolhido na matéria transmitida. Século XXI e tem gente saindo da faculdade achando que alcança a imparcialidade. Ai ai... E a briga para o ângulo
da matéria mais favorável ao lado A ou ao B da história? "Jornalistas de jornal", atenção! Vocês trabalham em uma empresa e a censura não é apenas ética, mas principalmente econômica. Não se façam de desentendidos com os anunciantes que os sustentam. Peçam de vez quando licença ao egocentrismo que está a sua frente e tentem enxergar os atos da sociedade como eles são.

A comunicação é um bem social? Eu afirmaria que sim. Mas a forma como ela vem sido feita é preocupante. Aqui em Fortaleza é baixaria total na TV local no começo da tarde. Vergonhoso. Os impressos ainda tentam elevar a qualidade, às vezes conseguem, o que impede é a cultura política predominante. Por isso, volto ao Sodré e concordo quando ele fala na existência da ética somente quando ela vem atrelada à política. Privilégio de informações, relações por interesse, troca de favores, compra de serviços, má qualidade do que se transmite, patronato X salários medíocres (quando existem...). É coisa de hábito, sabe?

É por isso que sou Sodré, digo sim à POLÉTICA!!

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

A TV na linha de frente do combate eleitoral

Quem ainda não parou os olhos em frente à telinha na sala de casa para observar o show de promessas eleitorais está deixando de participar do processo de captação eleitoreira, uma guerrilha que acontece a cada dois anos. Os candidatos brasileiros já se apresentam ao público com todas as armas disponíveis e estratégias previamente definidas. Basta um pouco mais de atenção e até você, que não é um Duda Mendonça, pode decifrar algumas delas.

Um dos fatores que colaboram fortemente para o sucesso das campanhas via TV é a característica do indivíduo do nosso país, que, como de praxe, não tem consciência – e nem interesse – pelo conhecimento. Sim, saber mais sobre o comportamento humano e social e estudar as práticas de quem compõe a estrutura política brasileira já é um bom começo para a percepção dos dispositivos deles e, conseqüentemente, aumentar sua munição intelectual extremamente valiosa no momento decisório.

Aqui vai uma mãozinha para quem se interessa pela disputa. Primeiro, é preciso que se reconheça os mitos da autocompreensão. São eles: o da liberdade humana, que a define como a capacidade de adotar crenças e comportamentos autônomos, baseados mais em convicções do que em doutrinamentos ou emoções; o da racionalidade humana, que trata do caráter dual da pessoa e do constante conflito entre razão e emoção, sendo esta a grande definidora de nossas decisões; o da consciência, que atribui aos estímulos inconscientes a maioria das atitudes que tomamos no dia-a-dia e, por fim, o mito da percepção objetiva, o qual afirma que perceber é um trabalho seletivo e de interpretação, condicionado tanto por padrões culturais como por tendências pessoais de caráter sentimental.

Agora, imagine você assistindo ao horário eleitoral gratuito tendo em mente o mínimo desse conhecimento. Já conseguimos algum avanço, certo? Mas a empreitada pela defesa da nossa capacidade de decisão não pára aqui. Exemplos de como a mídia já foi utilizada a serviço do poderio político também contribuem para o nosso objetivo.

Joan Ferrés, em Televisão Subliminar, descreve várias situações, em diversos lugares do mundo, nas quais a televisão e as artimanhas publicitárias foram determinantes para a vitória dos candidatos mais coerentes com a tecnologia de abrangência massiva. A conclusão de que “as campanhas eleitorais foram transformando-se em verdadeiros festivais nos quais o espetáculo conta mais do que a ideologia, a paixão mais do que a reflexão, a emoção mais do que a argumentação” (pág. 182) indicou um dos princípios-chave do Estado espetáculo: o conhecimento das emoções que o líder despertará e seu conseqüente aproveitamento.

O autor continua e justifica o poderio da televisão afirmando que os falsos mitos “impedem a tomada de consciência da complexidade da experiência de ser telespectador e, em conseqüência, do extraordinário poder socializador da televisão, do alcance real de seus efeitos”. (págs. 14 e 15) Imagens na imprensa escrita e na TV da morte de um oficial guerrilheiro no Vietcongue foi o necessário para sensibilizar os americanos, os quais sabiam que milhares de pessoas morriam no combate. O impacto emocional mobilizou a opinião pública contra a guerra, algo que centenas de páginas escritas não haviam conseguido. Um exemplo da influência da potência emocional no ser humano.

Inevitavelmente, o discurso político torna-se cada vez mais próximo do discurso publicitário, e nós, sem a percepção de que somos consumidores das propostas sociais, cedemos continuamente à sedução da mídia. Imagem pura. Muito longe do convencimento, somos vitimados pela beleza e influência espetaculares que a telinha proporciona. Nas histórias do mundo, temos o ator Mikhoels orientando Stálin; o famoso Goebbels, doutor em filosofia e ministro da Propaganda na Alemanha nazista, o fazia com Hitler; o publicitário baiano do início do texto também leva o mérito pela conquista da presidência do Brasil pelo pobre operário nordestino que recorre atualmente ao Botox rumo à disputa eleitoral de 2006. Vida de político não é fácil, não; e sai caro!.

Com estas proposições, já se pode contar com um bom armamento contra as tentativas de burla do inimigo: a compreensão do discurso político encenado e a percepção dos fatores que o legitimam, como a identificação provocada no receptor que se mostra, então, crédulo às “propostas”. Não esqueçamos jamais das pesquisas de opinião, principal mecanismo legitimador. É para estes alvos que nossa munição deve apontar. O lema é: “Precaução máxima com o aparelho de TV”. Alerta sempre. Enfim, são apenas recomendações rápidas em defesa do nosso patrimônio intelectual e financeiro.

Por Juliana Sousa

A seguir, algumas marcas de Duda Mendonça no governo e no PT:

Festa da posse
Foi totalmente concebida pelo publicitário, desde os desenhos dos palcos na Esplanada dos Ministérios até a idéia de que o presidente Lula percorresse a Esplanada em carro aberto, passando no meio da multidão. Também foi registrada por sua equipe em película, para exibição posterior.
Custo divulgado: R$ 1,5 milhão (total da festa)

Fome Zero
Duda idealizou o nome do programa de segurança alimentar, a logomarca (prato com talheres dentro da bandeira do Brasil) e a campanha publicitária na TV, com o slogan “O Brasil que come ajudando o Brasil que tem fome”. O locutor é o mesmo da campanha.
Custo: R$ 3,5 milhões

Logomarca do governo
A palavra “Brasil” aparece em várias cores, com uma bandeira do país na letra “a”. Abaixo, aparece um subtítulo: “País de todos”. A marca é usada para identificar obras, sites, documentos e propagandas do governo.
Custo: segundo a Secom (Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica), Duda não cobrou pelo trabalho.
Fonte: Revista Primeira Leitura

*Trocando de monitor:

Efeito Copa do Mundo: os acessos à internet caíram 70% durante os jogos do Brasil. Na televisão, a audiência quadruplicou.

Efeito horário eleitoral: 28% dos aparelhos de TV são desligados quando começa o programa eleitoral noturno. Os acessos à internet sobem 30% e as compras virtuais, 8%.

Fonte: Plug e Ibope.

Referências bibliográficas:
- FERRÉS, Joan. Televisão Subliminar: socializando através de comunicações despercebidas. Porto Alegre: Artmed, 1998.
- PRIMEIRA LEITURA, São Paulo: n. 17, jul. 2003. Mensal.
- VEJA. São Paulo: v. 1970, n. 33, ago. 2006. Semanal.