segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O homem do catolé


Sol queimando a pele, a cabeça, o tempo e a pressa. Chão rachando o pé, a sombra, o rio e a vida. Em cima e embaixo, o homem do catolé padece dos males externos, desse jeito de viver que, ainda que mais mate do que dê vida, é o jeito que "Deus quis". A paciência reina no espiríto que sabe ser o mais ágil quando a luta se anuncia. É a braveza camuflada de respeito.
A faca na cintura corta o mato que engole, descasca da fruta derradeira e elimina o inimigo que pode virar caça e uma janta farta ou mais um frouxo que não sabe viver na terra quente. O assunto é um só: onde nasce e morre a água, o que se planta e quando dá, a chuva traiçoeira e o calor miserável. O destino foi escrito e ninguém pergunta por quê. É assim e pronto.
Cruzando com esse homem, ele percebe que você não é dali, que a areia dele é estranha, que te bota no bolso em um minuto. Mas ele não é mau. O chapéu é só proteção, a mão grande e grossa é, mais uma vez, culpa da terra; a voz grosseira e o olhar penetrante são só o jeito de bicho, em que mais se espelharam para fazer o que de melhor sabem: sobreviver.
Mas jeito de bicho não combina com oferecer morada e comida pra desconhecido se arranchar. E nem de ficar em pé às 12h sob o céu do sertão explicando a situação do açude meio cheio ou das terras do vizinho que a queimada levou. Isso tem, no mínimo, um quê de socialização, de convivência, de noção do outro. Concluí que, no catolé, o homem é mais humano.

domingo, 7 de outubro de 2007

JuHits de cara nova

Mais consistente, cores fortes, mais intenso. Traços mais definidos, bordas e texturas densas. Mais diversão, espaço para enquetes, interatividade com notícias online e com muito mais links interessantes ao universo particular da autora. Sugestões e críticas já estão sendo aceitas!

Então, este é o novo look de JuHits, que continua trazendo o conteúdo do meu interior: cabeça, coração, pele, emoção, sensações. Um pouco da Juliana em palavras e texto.

Espero que aprovem!
Bjs!

domingo, 30 de setembro de 2007

Osso duro de roer

Tropa de Elite do Bope - Batalhão de Operações Policiais Especiais. Sigla forte, sonoridade decisiva. Nome da mais preparada equipe de guerra do país, do exército de profissionais composto por homens da lei que se arriscam à morte com bem mais frenqüência que qualquer outra categoria de policial brasileira. Assistem às aulas de treinamento com a granada na mão e preferem finalizar um vagabundo com uma 12, desfigurando eternamente mais um comandante do morro. Osso duro de roer.

A Tropa de Elite exibida pelo viés de José Padilha com R$10.000.000,00 na mão pode ser entendida como o grupo de homens que sobem o morro para apagar e nunca para sumir. Entram na favela com estratégia, não tem tiro à toa, não. Os soldados são os homens que optaram por aquela determinção que, quando bate, mais parece um instinto animal inexplicável que um objetivo social claramente definido. Eles não usam farda azul. A farda é preta, entendeu?

Os homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais não podem ser corruptos. Aqueles homens são os soldados da linha de frente do interminável conflito entre os podres e ricos do Brasil. O que não é nada novo nem pequeno para as nossas dimensões. E a galera do tráfico... Bem, eles não sabem o significado de crime nem de castigo, nunca tiveram chance de compreender o que é uma lei ou o que é um Deus. E a Tropa de Elite os pune duplamente em nosso nome.

Não vou falar de mazelas e decadência do nosso sistema policial, da burocracia, dos jeitinhos, dos PMs que fazem extra. Para mim, isso tudo é conseqüência, fuga do tema ou qualquer outra coisa que pareça papo intelectual analítico. A Tropa, os homens da Tropa e a vida dos homens da Tropa são outra realidade. Outra definição de mundo e de vida. Para ser um deles, é preciso ter cérebro e punho incessantemente ativos. Porque se não for assim, o cara pira. Osso duro de roer.

Cenas do filme ao som de Tihuana:
http://www.youtube.com/watch?v=EPwkYA9KsHE

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Dois corações

Na realidade dos meus sonhos.
Na dor aguda que me lembra a vida.
No chocolate pregado na bochecha.
Na ferida no joelho.
Nos berros da madrugada.
Na apresentação da escola.
Nos pulos na cama.
Nas gargalhadas fartas.
E nos berros exigidamente exagerados.
Nas febres altas.
No olhar que tudo compra.
Na corrida em direção ao abraço suado.
Na família desenhada no papel.
Na primeira viagem.
No banho de chuva com os amigos.
No colo seguro.
No sermão do professor.
E no complicado cadarço do tênis.
Meu rebento, já tenho vida por você.
Uma vontade louca de apresentar o meu mundo.
E torná-lo minha melhor construção.
Sabe o que é mais impressionante?
Essa certeza da maternidade que me toma de uma vez nos acasos.
O arrepio completo e a lágrima que quase cai.
A visão do barrigão, sua chegada...
Um novo coração dentro de mim.
E eu ainda nem te conheço.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Addio, Pavarotti!

Não é por acaso mesmo que brasileiros têm afinidade com a Itália e vice-versa. Véspera de feriado, meu sorriso escureceu quando li, na Internet, notícia fresquinha anunciando a morte de uma voz aclamada no mundo todo. Pavarotti conquistou o planeta não só pelo talento indubitável, mas pelo carisma que é a nossa cara.

Tudo bem, ele era craque no futebol e soltava o bocão como ninguém em suas apresentações países afora, mas Luciano Pavarotti merece condolências pelo grande feito de levar uma arte antes exclusiva dos nobres que freqüentavam os grandes teatros para os ouvidos e apreciação de, até então, seres "ignorantes”. Um tenor pop!

Falo de Pavarotti no meu blog porque ele entendia que a vibração emocional da arte no nosso corpo e na nossa mente independe da nossa verba salarial. É a coisa mais artística que alguém pode concretizar. É por isso que o associo à alguma brasilianidade, a algum “dar pra quem não tem” tão característico nosso. Esse italiano era assim, "gente boa", que abraçava e gostava de rir.

O governo da Itália vai homenagear o maestro com um novo prêmio de cultura. O Teatro de Modena, sua cidade natal, vai ganhar o seu nome, assim anunciou o prefeito hoje. "Alguns conseguem cantar ópera. Luciano Pavarotti era uma ópera", afirmou Bono Vox no site da banda. Foi-se um dos grandes. Um dos inesquecíveis, um dos que figurarão, por anos e anos, na lista de personalidades mundiais do século XX. Addio, Pavarotti!

*Bono Vox, no site oficial do U2.

domingo, 26 de agosto de 2007

Emoção de cor laranja

Ele dissipa o amor. Na voz, nos gestos, no suor, no violão. Nando Reis é um dos poucos cantores dos quais posso me considerar uma grande admiradora. Além das proezas com as palavras, o lado família do cara me deixa ainda mais boquiaberta. Pode correr com o babador! Já tem um tempo que não perco um show do ruivo na minha cidade e confirmo: a apresentação em Fortaleza ontem foi demais!

Integrando o projeto Eu faço cultura* - amei o título -, Nando tem percorrido as maiores cidades do Brasil e deixado o seu tom de amor encantar milhares de apaixonados pela vida. O programa partiu dos funcionários da CAIXA, quando mais de oito mil deles contribuíram para transformar o projeto no maior do país promovido por pessoas físicas. Então, cantar, pular e gritar com o ruivo de pertinho por R$7,50 a hora tá bom demais, né?

O show do CD Luau MTV com Os Infernais teve exatos 140 minutos de duração. Cenário vermelho e laranja predominando: a cor do sol e a cor dos cabelos de Nando e Zoé, filha mais nova homenageada em Espatódea - nome de uma árvore que dá uma flor laranja. Sem surpresas, Nando detonou e deixou Fortaleza laranja de emoção. Sem timidez também, só óculos Ray Ban e peito aberto pra sentir toda a nossa vibração. Amei!

*As doações, feitas com incentivo fiscal pela Lei Rouanet, somam R$ 2,7 milhões e viabilizam semanas culturais em 30 cidades do Brasil com eventos de músicas popular e instrumental, literatura e fotografia.



** Cenas bacanas do show de ontem aqui:

domingo, 22 de julho de 2007

Transformers

O planeta Cybertron e a sua raça de robôs evoluídos iniciam a grande história que vem parar na Terra. Autobots (facção operária, o bem) e Decepticons (facção militar, o mal) entram em conflito durante eras, consumindo boa parte da energon - energia responsável pela sua existência. Nesse pega pra capar galáctico, eles são atraídos pelo campo gravitacional do nosso planeta azul e se misturam aos bilhões de humanos e nossas incontáveis fontes de energia natural. Detalhe: por serem super desenvolvidos, podem assumir várias formas de objetos para o alcance de seus objetivos. Na Terra, os robôs se transformam em equipamentos, armas e, principalmente, veículos.

A história dos Transformers já foi contada em desenho animado, gibi e filme. Por não possuir direitos autorais exclusivos, quem veicula, por vezes, altera alguns detalhes, o que resulta num desencontro de datas se comparadas algumas versões. A animação foi febre no Brasil e os brinquedos, adicionados à magia de transformar carros em robôs, encanataram muitos pivetes do meu tempo.
Agora, a parte mais legal, os personagens-chave! Optimus Prime é o heróico líder dos Autobots, cheio de coragem, princípios de direito e a favor da liberdade de escolha. Ele se transforma numa carreta linda (vermelha e azul, por que será???), que lidera sem autoritarismo. Blumblebee é um herói de guerra, um Chevrolet Camaro que faz sucesso no longa. O mal: basta citarmos o grande líder Megatron. É uma espécie de "jato" cybertroniano. Não tenho dúvidas, um dos melhores momentos do filme é dele, e justo quando se apresenta: "I am Megatron", com aquela super voz que arrepia até quem não tá na sala do cinema.

Enfim, passado o blá-blá-blá, o interessante é percebermos o quanto de sociologia e filosofia pode-se encontrar ali, no meio de um monte de máquina. Vale ressaltar as cenas ótimas de ação, explosão, tiros e tal; mas a lógica do longa traz pensamentos consistentes too. O cara falar que a gente é uma raça nova, atrasada, perfeitos débeis em comparação a eles foi tudo. Um belo lembrete pra quem acha que só pode e não deve, uma lição para os religiosos ao extremo, um "alô" para os líderes mundiais e um sinal de alerta para os "comuns", os que fazem as sociedades diariamente.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vôo JJ 3054

O Brasil parou ontem à noite. Milhões de olhares voltaram-se para as TVs e outros meios de comunicação em busca das mais incríveis imagens e de novas informações; alguns, como eu, até esperavam ver uma cena chocante de salvamento, daquelas que arrepiam, uma vida inteira preservada.

Mas não, só desabamento, fumaça e fogo, muito fogo. Uma grande chama no meio da maior cidade do país. O interessante para ser analisado nesses momentos é o clima de comoção que ultrapassa qualquer "barreira" tangível. Os jornais do mundo todo noticiaram a tragédia brasileira, o presidente decretou luto de três dias, as bandeiras - brasileiras e internacionais - do Pan estão hasteadas a meio mastro. A formalização das condolências tem sua beleza. Parece até que vivo numa nação digna.

O pior, o doloroso são os gritos de negação dos familiares com a confirmação dos nomes. É ver pessoas indo do Rio Grande do Sul a São Paulo com materiais que possam identificar as vítimas, carbonizadamente irreconhecíveis. E eu penso, como todo mundo: "Por quanto tempo eles souberam de sua eminente morte? Teve oração coletiva? Entrega desesperada?". O piloto tentou e acho que calculou bem como poderia acabar com aquilo com menos danos possíveis. Eram 186 pessoas a bordo e esta se tornou a maior tragédia da aviação brasileira.

A TAM tem uma das frotas mais novas em circulação, aviões com menos de dez anos de uso, muitos com avançado sistema eletrônico. Difícil ter sido falha técnica. O acidente aconteceu às 18h45min no aeroporto de Congonhas. Antes desse, muitas outras aeronaves já haviam derrapado, algumas resultando em acidentes fatais inclusive. Os estudos vão indicar a causa desse terror, eu só temo que seja o descuidado com a pista. Porque aí já é demais. Já é desperdiçar muitos de nós dolorosa e vergonhosamente para o mundo num despreparo inaceitável.

JuHits está de luto.
*A foto é de Isabela Noronha

domingo, 8 de julho de 2007

PornoGráfico. Você também é.

Voltando do shopping no domingo à noite, pensei em passear na praia - sempre é bom aproveitar o privilégio de morar num litoral, né? Pelo menos, é como costumo pensar. No caminho, passei em frente ao teatro e grito logo: "Olha! Vai ter hoje PornoGráficos aqui! Vamo vê?". "Ah, vou sim. Deve ser legal".

E foi mesmo. Só conhecia o grupo de nome e, depois da exibição, passei a gostar do trabalho. PornoGráficos fala de... um obcecado por prazer rápido e fácil? Um doente louco por orgasmos contabilizados no chão da sala? Um ninfomaníaco? Não. Apenas mostra o homem posto às claras, pelo interior, através do ambiente de cores escuras. Sexo. Sexo. Sexo. Na cabeça, na mão, nos papéis, no pensamento. É uma paranóia oscilante entre o real e o imaginário.

O homem e seus desejos. O antigo dilema vem à tona figurado num "profissional" que desenha e se masturba incessantemente. Não há controle. Só entregas à facilidade e ao gosto do prazer sexual. Freud explicaria melhor aquele cara e seus amigos-da-sacagem, morto pelos próprios sentidos, comedor de seus próprios pedaços, sugador de sua própria energia. É bem o homem mesmo. É como você.

Ao final, recordei da resposta do psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris à revista nacional da Volkswagen. A pergunta era se considerava nossa sociedade hedonista. Ele foi categórico: "Acho o contrário. Prazer implica desgaste... Se somos hedonistas, somos hedonistas de circo". Concordo. A moral vem para nos conter e vivemos limitadamente. PornoGráficos exibe o humano animal e institivo, como muitos não querem ver. Eu me vi.

OBS: Sweet Dreams com Marilyn Manson ao fundo ficou demais!

sábado, 7 de julho de 2007

Kruppa


Final da Especialização em Assessoria de Comunicação, disciplina de Psicologia Organizacional. Definimos grupo:

do Germ. kruppa, massa enrolada
s. m.,
conjunto de objectos abrangidos no mesmo lance de olhos;
conjunto de coisas que formam um todo;
conjunto de indivíduos que têm interesses comuns;
conjunto de organismos relacionados;
reunião de pessoas;
ajuntamento;
pequena associação;
conjunto de átomos que formam parte de uma molécula;
Biol.,
conjunto de seres vivos com características comuns, a partir do qual é possível constituir outros conjuntos (família, espécie etc. );
Brasil,
uma das combinações do jogo do bicho;
gír.,
mentira, logro.
- de pressão: grupo ou associação de indivíduos que defende os interesses comuns dos seus membros procurando persuadir a opinião pública e a atividade governamental;
Med.,
- sanguíneo: cada um dos grupos de sangue humano caracterizados segundo as incompatibilidades que apresentam entre si quanto à hereditariedade e à transfusão

É. No resumão, acho que a gente foi isso mesmo.
Foi bom.